Juan andava sem olhar para ninguém, andava sem rumo, passava por ruas e becos, todos conhecidos, afinal, ali era sua terra. Logo, se viu à frente da cantina. Não entrou de imediato, observou o prédio primeiramente, era tudo tão seu, tão familiar, baixando a cabeça como se entrasse numa igreja, abriu a porta e entrou descendo as escadas. Chegando ao balcão, avistou um amigo, que apesar de ainda muito jovem, trabalhava na cantina com Paolo.
- Pietro! – disse Juan chamando-o – Venha cá.
- Como tem passado Juan? – disse Pietro sorrindo para ele
- Estou bem – sorriu Juan
- Ficará melhor quando eu lhe contar a novidade.
- E qual é? – perguntou curioso
- É sobre o “Odessa”. Ele ficou pronto, e não fizeram serviço mal feito, eu mesmo fui com tio Paolo confirmar, o barco tá mais bonito que antes...nossa...
- Odessa...- disse ele se lembrando da Irma bastarda – Temos que mudar esse nome.
- Não, não pode não Juan. E tudo que já conseguiu com ele?
- Ora podemos obter novas conquistas. Não pense pequeno.
- Ah não sei não Juan. E o respeito e a honra...imagina...tanta gente te respeita só por falar que é o dono do Odessa. Aí, eu não concordo não hein.
Juan se arrependeu de ter colocado esse nome em seu navio, fizera isso pelo grande amor que teve por Odessa, agora se arrependia.
- É...pode ser, deveras, uma criança me ensinar o que é correto...
- Ah capitão, esse navio te trouxe tantas vitórias, o Sr é novamente o nosso capitão.- disse o garoto orgulhoso.
- Não tenha tantas esperanças Pietro, afinal, não trabalho mais para a rainha. Se for roubar navios como antes, hoje, seríamos presos como piratas – Juan sorriu – E tenho um bom motivo para não querer ser preso hoje.
- Sim, eu sei, Lady Stollemberguer.
- Exatamente. Agora me dê duas tequilas para comemorar.
Pietro deu-lhe as garrafas, Juan agradeceu e dirigiu-se a uma escadaria que havia do outro lado do aposento, o que o levava para um quarto. Entrou e trancou a porta. Sentou –se na cama e chorou. Muitos sentimentos se misturavam, a morte da mãe, a falta dela, o ódio pelo pai, o passado de Odessa, a dúvida de Verônica, sua fraqueza. Descarregou sua dor em lágrimas e bebeu até que a tequila chegasse ao fim, acabando por adormecer abraçado à garrafa.
Já era manhã quando Bianca se levantou e após se vestir foi ate a cozinha. Sua mãe preparava o café.
- Bom dia mamãe.
- Bom dia Bianca – disse a mãe colocando algumas coisas sobre a mesa – Filha, anda tão abatida. Porque não tira o dia para descansar?
- Não mamãe, me perdoe contrariá-la, mas, quero passar o dia a trabalhar. Talvez amanhã eu descanse.
- Ora quanta disposição. O que houve?
- Ora, sempre estou disposta, hoje mais que outros dias só isso.
Ambas sentaram-se à mesa.
- Conheço você melhor do que pensas meu pequeno bebê. Não consegues esquecer aquele rapaz não é mesmo?
- Não mamãe...Jeffrey é passado – Bianca deu um leve sorriso para a mãe – Eu mal me lembrava...
- Não tem porque mentir para mim querida, muito menos para você mesma.
- Não é justo mamãe – Bianca deixou uma lágrima escapar – Tantos pretendentes aqui na vila...porque fui me apaixonar justamente por alguém do nível dele? Não tenho culpa...entrou no meu peito sem licença...
- Eu sei meu bem – a mãe se sentou ao lado dela e a abraçou – Não se culpe. Eu não te culpo meu anjo, fique tranqüila, vai passar.
- Eu espero que sim.
- Não quero que trabalhe hoje. Vá passear. Tome o poldro. Vá para as montanhas. Vá se distrair.
Jeffrey passara uma de suas piores noites de sono. Acordara tarde, com o rosto inchado e de completo mal humor. Ainda deitado em sua cama, espreguiçou-se e olhou para o teto. Vagarosamente se levantou, o movimento pareceu durar uma eternidade. Sentou-se na cama e respirou fundo. Dirigiu-se com passos lentos até a janela e,olhando para fora pôs-se a observar o imenso jardim e o mar que se abria atrás do mesmo. Com as mãos apoiadas no parapeito da janela forçou um pouco mais a vista e percebeu que o azul do céu estava completamente limpo e o sol ardia mais forte que Hércules. Foi até o quarto de banho, onde o seu já estava pronto. Livrou-se das vestes e adentrou a banheira, onde a água era morna e relaxante.
Meia hora depois ele levantou e saiu da banheira, colocou um roupão, foi até o guarda-roupas e se vestiu.
Quando desceu para o café já eram pouco mais de onze horas. Desceu as escadas rapidamente e chegando ao hall viu sua mãe, que estava a observar pela janela.Abanava-se constantemente com seu leque com bordas de prata e plumas verdes, que faziam par com seu vestido de linho da mesma cor. Ela estava tão bela, que até parecia bem mais jovem, as mangas do vestido vinham bem coladas no braço caindo pesadamente no começo do cotovelo, a pequena cintura delgada onde o vestido passava bem colado também, chegando aos seios num decote ousado. Jeffrey sorriu, sentia-se orgulhoso pela beleza de sua mãe. Aproximou-se dela, ainda com pouco humor.
- Bom dia minha mãe.
- Bom dia! Ora seja, Boa tarde! – disse a mãe espantada – Não sei o que faço contigo meu filho, chegas quando o sol desperta e despertas quando ele já está por adormecer novamente.
- Peço desculpas pelo meu mau comportamento mamãe, mas, sinto-me esgotado, ontem sai com alguns amigos e certo que exagerei, acordo hoje mal humorado e cansado.
- Não era para menos, são pouco mais de onze, o sol se encontra ardente e brilhante. Era certo que estarias com o humor abalado.
- Está bem, está bem. Confesso meu erro, mas, que cessem as lamúrias, pois como já havia dito, meu humor não é dos melhores.
- Estou saturada filho. Quero que descanse bem hoje. À noite terás de ir à ópera com Srta Stollemberguer. Não o quero de mal humor.
- Srta Verônica!? – disse ele sem entender – Como? Vou convidá-la?
- Já a convidou.
- Eu a convidei?
- Oh, é claro que sim, ao menos, é isso que ela pensa.
- Quer dizer, que minha querida mãe, disse a milady que eu a convidei.
- Lhe prometi um tempo para que se case com ela, porém deve fazer sua parte em cortejá-la.
- E não a estou cortejando – sorriu ele – Convidei-a para a ópera.
Vitória Hausman sorriu.
- Por certo – estendeu-lhe o braço – Vamos comer algo.
- Está bem – Jeffrey tomou o braço da mãe e dirigiram-se a sala de jantar.
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