segunda-feira, 3 de janeiro de 2011 | By: Thais Cabeza

IV

Bianca saltou de sobre o cavalo com a respiração ofegante, prendeu as rédeas numa árvore próxima e passou a andar.A poucos passos dela encontrava-se um castelo em ruínas. Sempre que se sentia confusa, desde menina, ia até o castelo. Entrou por uma porta entreaberta e meio desaprumada e olhou para cima, a maior parte do teto havia cedido, assim como a maior parte das paredes e dos cômodos. Sentou-se no que restava de uma escada.Não podia entender porque deixara ser beijada. Nunca se sentira assim. Nunca sentiu vontade de agir assim. Nunca permitira que nenhum homem se aproximasse assim. Ainda podia sentir o toque das mãos dele, tão gentil. Sentiu um arrepio. Mas, não poderia se iludir assim, afinal, não sabia se fora tão importante para ele quanto fora para ela. Talvez, para ele, fosse comum  abraçar e beijar, devia fazer isso com várias mulheres. Lembrou-se que, logo que se conheceram, ele lhe perguntou se ela pertencia à casa de Dna Sofia. Ele devia estar acostumado à mulheres fáceis. Pra ela aquilo não fora nada comum, só o fato de tê-lo permitido tanto era terrivelmente ameaçador. Esperava que ele agora não mais a procurasse, que a deixasse. Assim, que mal haveria num beijo? Ele não se lembraria e ela por sua vez esqueceria logo. Sim, havia chegado à uma conclusão perfeita. Afinal, o que era um beijo? A quem enganar? Para ele poderia não ser nada, mas, para ela, era prova de que sentia algo por ele. Sabia, desde que o viu no jardim, que não mais seria a mesma. Se isso era bom ou mal, ela não saberia dizer. Só sabia que aquele fogo ainda a queimava por dentro e mesmo negando sabia que ele revirara com os sentimentos no qual nenhum homem jamais tocara.
Olhou para o céu, já devia ser quase meio-dia. Saiu do castelo. Foi até o cavalo, desamarrou-o, foi para casa a passos pequenos.


Jeffrey estava sentado frente a escrivaninha, com o pensamento distante. Afinal, o que o havia descontrolado? Só sabia que precisava tocar Bianca, tinha que beijá-la, não entendia o porquê, era como se estivesse enfeitiçado. Pode perceber isso nos olhos dela também, logo que se libertou de seus lábios. Ela também fora impulsionada a isso, parecia tão inocente naquele momento, mal havia se dado conta do que havia acontecido. Não foi um mero beijo, fora algo mais forte, mas o que?
- Acalme-se Hausman – disse ele para si mesmo – Afinal o que é um beijo?
Levantou-se e sorriu dirigindo-se à janela. Olhou o mar e tentou desvencilhar o pensamento do olhar de Bianca, pôs-se a pensar em Verônica e de como poderia ser feliz ao lado dela, se não, ao menos realizado, afinal, era realmente linda, de uma família respeitada, assemelhava-se à um anjo, enquanto Bianca, mesmo tendo a tez de um anjo, era um mar de pura sedução, aqueles seus olhos cinzas e seus cabelos negros tiravam-lhe a paz. Jeffrey foi até a porta do quarto e antes de abri-la olhou mais uma vez para a janela, divertiu-se ao perceber que Bianca não lhe saía do pensamento. Abriu a porta e saiu.


Juan entrava no barco, pensou ter ouvido alguém chamá-lo mas, percebeu ser só ilusão. Verônica não estava ali, não havia nenhum sinal dela. Ele se questionava neste momento, será que Verônica realmente o amava? O barco zarpava e aos poucos se distanciava do porto. Não, era certo de que ela não o amava, pois, se assim fosse, ela teria partido com ele. Não, não poderia julgá-la. E se ela temesse ser abandonada? Céus! Como se enganava. Ela era tão importante para ele. Será que ela não percebia isso? Será que não via o desespero dele ao ter que partir? Ele sabia agora, que Verônica jamais seria  a mesma com ele. Estava partindo e levando assim, o que restava da confiança dela. O barco agora estava distante, a cidade ia sumindo e mesmo tão longe ainda podia senti-la ali, tão próxima quanto da última vez que a viu, na triste despedida.


Na casa dos Hausman, a sala de jantar estava em perfeita ordem. Talheres, pratos, copos de cristal e guloseimas. Os Stollemberguer a pouco haviam chegado, trazendo alegria aos Hausman ao aceitarem a união dos filhos.
Jeffrey e Verônica conversavam próximo à janela.

- O que há senhorita Verônica? Parece-me tão distante. Algo a perturba?
- Não há de ser nada sir Jeffrey – virou-se para ele – O Sr também me parece um pouco preocupado.
- Não de todo, tive alguns problemas no decorrer da semana, mas nada com que deva me abalar.
- Pois meu maior desejo é resolver o meu.
- Gostaria de ajuda para o seu problema?
- Sinto muito, sei que és um homem inteligente, mas, para esse assunto sei que não terá resposta.
- Oh sim, por certo, nós homens jamais compreenderemos os problemas femininos.

Ela sorriu diante o sarcasmo dele.
- Não é assim sir Jeffrey. Creio que existam homens que possam até compreender o pensamento de uma mulher.
- Ora de  certo não crê que eu seja um deles.
- Não exatamente... – disse ela sorrindo
- Ora então me diga que juízo fazes a meu respeito...
- Mesmo que tenha que infringir alguns conceitos de ética que me foram empregados?
- Pode falar, saiba que tudo que disser permanecerá aqui, nesta pequena parte da sala.
- Oh sim, bem sei que segredos sabes guardar.
- Pois então...
- Bem, és um cavalheiro, educado e gentil, atraente, charmoso e às vezes usa dessas qualidades para certos benefícios próprios não muito corretos, mas, me parece que tem um bom coração.
- Sou um santo! – riu ele
- Não exagere sir Hausman. É tudo o que disse mas, tem também seus defeitos...
- E quais seriam?
- Bem, às vezes, muitas vezes é insensato, prepotente, conquistador em demasia, por vontade própria, é também egoísta na maioria das vezes e completamente indiferente ao amor.
- Ora por certo sou uma contradição – Jeffrey sorriu – Mas, no tocante ao amor, sabes bem que para mim ele não existe.
- E não irá se casar jamais?
- Ora...e o que tem um com o outro? Basta-me beleza e inteligência como os tem a senhorita...
- Isso não é tudo sir Jeffrey, ouvir a voz que te abrande a alma, sentir a respiração faltar, o coração palpitar fortemente, e somente um olhar lhe incendiar...isso é tudo...
- Isso é tortura! Se isso é o amor quero total distancia de tal sentimento.
- Pois dizem que os que fogem, são agarrados de surpresa.
- Não comigo, hei de enfrentá-lo com unhas e dentes, não quero para mim tal dor.
- Bem, creio que falamos demais por agora, nossos pais devem estar famintos.


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