Ele ainda estava com uma das mãos pousada sobre a maçaneta, não ouvia mais os soluços dela. Pensou em sua mãe, no sofrimento que passara, sem ninguém a seu lado. Naquele momento seu pai poderia estar com a mãe de Odessa, enquanto sua mãe sofria as dores do parto e falecia, sozinha. A raiva aumentou de uma tal forma que ele soltou a fechadura como se fosso algo repugnante. Limpou a mão no paletó, dirigiu-se à porta de saída, abriu-a mas, quando ia sair ouviu a voz de seu tio Paolo.
- Juan – disse o tio enquanto Juan permanecia de costas – O que ela te disse?
- Eu sinto muito tio...não pude falar com ela.
- Entendo...
- Não tenho forças ainda, estou bastante machucado, me sinto traído...outro dia...ainda não – e dizendo isso saiu, fechando a porta atrás de si. Parou um momento ainda próximo a porta e respirou fundo. Levantou as golas do paletó para que lhe cobrissem o pescoço, pois, na mesma intensidade do calor da manha, viera o frio a noite. Colocou as mãos nos bolsos e passou a descer as escadas ate a rua. Chegando na calçada olhou para a janela do quarto de Odessa. Ela estava lá, de pé, atrás da cortina observando-o. Juan sentiu uma pequena fraqueza mas, desconsiderando passou a andar pela rua.
Bianca, sentada em sua cama, olhava para a camisa que estava em seu colo. Onde estaria Jeffrey naquele momento? Tentava se convencer de que não importava. Aquilo na realidade não era nada. Sentia-se assim, somente pelo fato de que Jeffrey fora o primeiro homem a beijá-la e demonstrar algum tipo de carinho acima do que muitos já haviam tentado demonstrar.
Podia se lembrar de todas as palavras dele com exatidão. Ele parecia tão vulnerável e carente naquele momento, não se parecia em nada com o homem viril e poderosamente rude como naquela noite da festa. Ele estava tão diferente, mas, tinha que entender que era só ilusão. Afinal, qual a moça que não se felicitaria por ter o primeiro beijo dele? Ela havia tido , o que muitas garotas deviam desejar. Mas, o preço estava sendo alto, ficara com uma imensa dor no coração, após o ocorrido, e um vazio tão grande que não sabia como preenche-lo. Tudo que queria era esquecer. Tentaria, usaria todas as suas forças, apesar, de não julgar precisar de tanto para esquecer Jeffrey. Olhou novamente para a camisa, dobrou-a com cuidado e levantando-se da cama deixou com que a camisola arrastasse pelo chão até chegar a uma cômoda. Colocou a camisa numa das gavetas, junto com suas roupas e fechou vagarosamente. Sorriu, como se Jeffrey fosse apenas uma lembrança de um passado agradável. Virou-se para a cama e percebeu a cortina esvoaçando devido a brisa da noite. Aproximou-se da janela e olhou para fora, tudo estava escuro e deserto. Olhou para o céu e viu milhares de estrelas. Respirou fundo permitindo que o perfume da noite lhe invadisse os pulmões. Fechou a janela e olhando uma ultima vez para a gaveta deitou-se na cama e adormeceu, o melhor sono de sua vida, sem sonhos, sem pensamentos de dor e sem lembranças, para acordar em paz no dia seguinte.
Jeffrey estava deitado ao lado de Maryan, acariciando-lhe os cabelos, com o pensamento longe. Pensava tudo que havia dito a Bianca, nesta mesma tarde e pensou se aquilo era realmente verdade, sorriu ao pensar na alternativa. Lembrou-se que ela havia dito “...não quero ir...”, talvez tivesse dito por ele ter sido o primeiro homem a beijar-lhe os lábios. Ela era tão linda, selvagem e ao mesmo tempo tão inocente.
- Jef!? – disse Maryan já exausta de tanto chamá-lo
- Me desculpe Maryan, eu estava pensando e não ouvi o que dizia.
- Percebi, onde estava? Por certo era bem longe, pois sei que não ouviu uma palavra do que eu disse.
- Sim, confesso que não ouvi o que dizia, o que era?
- Bem – ela aninhou-se em seus braços e acariciando-lhe o abdómen nu, recomeçou o que antes falava – Eu lhe perguntava quem é ela.
- Ela? Quem?
- Ora não se faça de tolo. Falo da tal Bianca. Ficamos juntos há dois anos e nunca falou nome algum, mas hoje, sussurrou algumas vezes o nome dela.
Realmente, já faziam mais de dois anos que freqüentava a casa de Dona Sofia e só agora se dera conta que suas noites eram sempre passadas ao lado de Maryan.Era difícil sair com outra pessoa, apesar de ter acontecido algumas vez. Não havia notado mas, realmente pensara em Bianca o tempo todo.
Que havia feito Bianca com ele? Talvez algum feitiço, deveria de pronto ter desconfiado, após ter visto aqueles olhos tão magníficos que com certeza eram únicos.Era uma feiticeira e Jeffrey parecia ter caído em seu inocente e maldoso feitiço.
Ele olhou para Maryan, como era bela também, seus olhos azuis, cabelos negros e suaves , seu corpo era perfeito e sentia tanto prazer com ele, mas, não era Bianca.
- Jef...vai me dizer quem é ela?
- Ora, por certo ouviu algo que eu não disse, afinal, não conheço Bianca alguma.
- Por hora acreditarei em ti mas, confesso que ainda resta uma pequena ponta de duvida.
- Vou sanar sua duvida logo – disse ele beijando-a, depois delicadamente afastando-a um pouco – Mas, não hoje, preciso ir agora, talvez no sábado.
- Está bem.
Ele se levantou e começou a se vestir e após ter colocado sua roupa e amarrado devidamente o cabelo foi ate a cama novamente.
- Não diga isso a ninguém.
- Se é o que deseja...
- Até.
E beijando-lhe levemente os lábios partiu.
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