Uma das garrafas encontrava-se vazia e quebrada no chão, a outra, ainda apertava-se de encontro ao peito de Juan. Ele estava adormecido, o sol batia-lhe na face com ardor e brilho, mas, era como se estivesse morto, pois nada sentia, a não ser o agradável conforto da cama onde se encontrava deitado.
Passou muito tempo até que abrisse os olhos. Tinha tanta dor de cabeça, que mal se lembrava de como viera estar ali sobre aquela cama. Com muito esforço conseguiu piscar os olhos, a luz era muito forte e as pálpebras pesavam-lhe sobre os olhos. Sentiu os braços e o peito úmido, desviou os olhos para o braço e pode ver que o restante da tequila fôra derramada. Colocou vagarosamente a garrafa no chão e sentou-se na cama com muita dificuldade. Colocou as mãos por sobre as têmporas pois a cabeça latejava cada vez mais forte. Tentou olhar pela janela, mas, cada movimento, dava a impressão que a cabeça se deslocaria do corpo.
O sol estava ardente, o quarto abafado e o cheiro de bebida inundava o ambiente fazendo com que a dor se tornasse insuportável. Lentamente, tirou as mãos das têmporas e tirou a camisa úmida. A cabeça, parecia estar a ponto de explodir. Jogou a camisa para longe e deitou-se novamente com a mão por sobre os ouvidos agora. Queria fechar a janela, chovera a noite, o chão estava molhado, a brisa quente que adentrava o quarto, tornava tudo mais pesado. Estava muito fraco, não conseguia mais se mover, urrou baixinho pra si mesmo sentindo que o corpo estava quente e a dor de cabeça só fazia aumentar. Ouviu um grande estrondo. Pensou ter perdido a audição naquele momento. Tentou ver o que houve, mas, não pode. Sua vista estava embaçada e a dor parecia aumentar a qualquer movimento. Sentiu uma mão fria sobre sua tez e desvencilhou-se dela com violência, mas, a mesma mão fria tomou-lhe uma das mãos, e mesmo tentando desvencilhar, não pode, pois estava muito fraco.
Pode sentir a mão fria sobre seu peito e urrou novamente. Sentia que estava quente e abafado, mas, ao mesmo tempo um frio terrível tomara conta de seu corpo. Encolheu-se na cama. Ouvia passos, ouviu gritos incompreensíveis. A última coisa que pode ouvir, foi a porta batendo violentamente.
Bianca estava a andar pelos pastos verdes e a colher flores. Passeava a pé. Não pensava em cavalgar. Temia o que o destino podia lhe reservar se retornasse ao castelo em ruínas. Sentia-se mal por não ajudar sua mãe, mas, sentia que precisava mesmo de um tempo para si. Andando próximo ao bosque, lembrava-se do dia em que encontrara Jeffrey ali. Sorriu tristemente para si mesma. Como poderia ter se apaixonado por alguém como Jeffrey. Só pelo fato de tê-lo encontrado pela primeira vez na casa dos Hausman, já deveria ter em mente que era uma pessoa muito importante, ora, se não eram somente os de classe mais alta que freqüentavam as festas dos Hausman. Não deixava de pensar no fato de Jeffrey jamais tê-la denunciado a eles. Se os Hausman imaginassem que alguém invadira seu jardim, sem dúvida, puniriam tal pessoa. Eles eram conhecidos por serem esnobes e frios. Nunca vinham à vila. Pouquíssimos empregados já haviam passado por ali. Era uma honra trabalhar para eles. Os empregados eram enviados para outras capitais para comprarem comida e o que fosse necessário. Quem seria a família de Jeffrey. De certo era conhecida, e muito, se não, certamente não estaria ali naquele dia.
Foi até a venda do pai de Victor, e lá avistou ambos.
- Bom dia Sr, bom dia Victor – disse Bianca sorridente
- Bom dia Srta Bianca – respondeu o pai de Victor – Espero que não tenha vindo para roubar meu filho.
- Oh não Sr, não se preocupe – ela riu – Sei que Victor está ocupado.
- Onde está sua cesta? Não fará compras hoje? – perguntou Victor
- Não, mamãe não quer que eu trabalhe hoje.
- Pretende cavalgar?
- Não.
- Está bem, está bem. – disse o pai de Victor sorrindo – Sairei somente por alguns instantes para que possam conversar em paz, mas, já vou avisando, não se demorem.
- Obrigada papai – disse Victor
- O que houve Bianca?
- Não houve nada. Só não quero cavalgar. Quero descansar mesmo, como mamãe me pediu.
- Não me disse o que houve naquele dia.
- Que dia?
- Ora Bianca, quando se encontrou com...
- Não quero falar sobre isso – disse ela interrompendo-o – É justamente para isso que preciso ficar só por hoje. Para encontrar um meio de esquecer...
- O que? Está...está...não pode ser...
- Eu sei...não tive controle sobre isso...
- Bianca...ele não. Sabes que sou teu amigo, estou sempre do teu lado. Somos como irmãos. Ele não é para você...
- Oras, e porquê? Sei que tem posição social alta, mas, porque não é para mim? Acaso o conhece?
- Bianca pois se não é....
- Pronto – disse o pai de Victor retornando – Acredito que tiveram tempo de falar seus segredos, agora, se me permite Srta, tenho que voltar ao trabalho.
- Tudo bem Sr, me desculpe e obrigada, volto amanha Victor...e me explicas o porquê.
- Até Bianca...cuide-se.
Jeffrey estava no jardim. Encontrou seu amigo Steve, a quem conhecia desde a infância, alegrou-se. Não via Steve desde sua festa de aniversário.
- Como tem passado caro Steve? Penso que tenha passado bem, afinal, não o vejo desde meu aniversário.
- Perdoe-me caro amigo, tive que resolver vários assuntos para meu pai, acabei por ficar sem tempo.
- É bom vê-lo novamente. Poderíamos cavalgar um pouco.
- Sinto, mas, não posso. Vim ter com vosso pai a fim de resolver alguns assuntos políticos. Deixemos o passeio para a próxima semana. Poderíamos ir a casa de Sofia.
- Claro, venha, o acompanho até meu pai.
E dizendo isso Jeffrey acompanhou Steve. Deixou-o na porta, despediu-se e saiu.
No hall dos Hausman, Lady Vitória chorava ao ler uma carta que tinha nas mãos. Percebeu, pois, que sir Hausman adentrara o aposento.
- Meu querido! – dizia ela como uma criança, correndo de encontro ao esposo – Veja! Que maravilha!
E assim, Alfred tomou das mãos da esposa a carta, passou os olhos rapidamente e um grande sorriso brotou-lhe nos lábios.
- Ela chegará amanha. Ela voltará para casa.
- Não é maravilhoso, ah quando Jeffrey souber...
- Por certo...- e desviando os olhos da esposa viu que Steve entrava – Ora, que ótima surpresa.
- Bom dia sir Alfred – disse ele cumprimentando sir Hausman com um aperto de mão e depois beijando a mão de Lady Vitória – Bom dia lady Vitória.
- Como é encantador Steve – disse Vitória sorrindo
- O que o traz aqui meu caro?
- Meu pai, sir Alfred, pediu-me para discutir alguns assuntos como Sr.
- Oh sim, por certo. Venha a meu escritório onde poderemos conversar. Com licença querida – disse ele voltando-se para a esposa – Mais tarde comemoraremos.
- Com licença sra Hausman.
- Tem toda srs.
Os dois saíram do Hall deixando Vitória a sós. Esta foi até a cozinha.
- Sra...ha algo errado? A sra precisa de algo?
- Sim – disse sorrindo – mudaremos o cardápio de amanhã...ah, terá de ser muito especial...